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HISTÓRICO DA FUNDAÇÃO HILDEBRANDO DE ARAÚJO

Hildebrando e Dona Leopoldina

Nasceu em Imbituva, do casal Júlio Cesar de Souza Araújo e Dona Manuela. Ele, professor muito atido à missão, morreu cedo. Deixou três filhos quase crianças. Três nomes que iriam enaltecer seu Estado, o Paraná: Heráclides Cesar de Souza Araújo, famoso médico leprólogo, que correu o mundo em diversas direções, pesquisando a temerosa doença; Hostílio Cesar de Souza Araújo, advogado brilhante, que após longos anos de militância na capital de São Paulo, veio desempenhar, ao lado de suas conquistas particulares, várias funções publicas de realce notável no Paraná, como Diretor do Ensino (Secretário da Educação), Prefeito de Curitiba, etc. Hildebrando Cesar de Souza Araújo, o ainda mais bem aquinhoado de inteligência, a quem bastaram o curso primário, desenvolvido na escola do próprio pai, e a escola da vida, onde rompeu todos os diques que se lhe antepunham, sem medir canseiras nem as metragens à frente, para se tomar líder social, político, comercial, intelectual.

Eis apagada noticia do início, ponto de apoio material do comerciante:

A vila de Ipiranga não fica muito distante de Imbituva, onde passara os mais verdes anos. Órfão de pai foi para aquela localidade empregar-se humildemente na loja sortida (secos e molhados, armarinhos, uma espécie de "tem-de-tudo") pertencente ao Sr. Nicolau Farhat, imigrante sírio respeitável e de boa competência no ramo.

Hildebrando começou pelo começo. Varria o chão, desencaixotava e abria fardos de mercadorias. Fazia embrulhos e pacotes. Nas grandes afluências da freguesia, ia ajudando no balcão.

Sua vivacidade e a ânsia natural de fazer progresso elevou-o logo da vassoura para o contato direto com os compradores. Era amistoso, mais do que cordial, alegre, sem bajulação, atencioso e senhor de ótima memória para nomes, recepcionando a todos com acolhida sincera, pessoalizando-os. Conquista valiosíssima de relações, que ia atapetando seu caminho.

Nesta fase de balconista, mostrou que não lhe agradava encostar-se no aguardo dos visitantes, vicio tão geralmente arraigado. Eram minutos aproveitados para condensar o que ouvia e deduzia, dentro de algumas laudas de papel almaço que denominava "jornal" e nos fins de semana levava aos homens influentes da terra, para que lessem e comentassem, quando com algum deles não deixava, visando maior rotação entre os mais chegados ao acolhido depositário.

Melhorava cada vez mais sua caligrafia, pois escrevia e desenhava diretamente o exemplar único, sempre esmerado. O círculo de relações entre as pessoas mais cultas ia se alargando a cada semana. E crescia sempre, conquistando simpatia e respeito pelas qualidades intelectuais, verdadeiros retratos evolutivos, gravados nas entrelinhas do seu hebdomadário. Enriquecia seu recôndito tesouro de conhecimentos, pelas pesquisas que se impunha, na deliberação de transmitir à clientela admiradora da leitura, tudo que surgia no mundo, no Estado, no Município.

Não demorou muito para que passasse do balcão para o escritório da firma, onde enfrentaria ampla tarefa, porque a grande loja ia se estendendo na compra de erva-mate e financiamento rotativo aos lavradores desse produto e de cereais.

Seu ordenado inicial ínfimo tornava-se cada vez mais ponderável, mas não sentia prazer em gastar com as futilidades dos companheiros da mesma idade; talvez escolhesse esbanjamentos naturais, porque muito mais lhe aprouvesse ajudar materialmente os dois irmãos em seus estudos, almejando-os vencedores, nos pícaros da sociedade. Nunca se ufanou e nem se referiu a este particular.

Passou a "interessado", como se denominava ao comerciário que deixava parte de vencimentos na firma, e pelo trabalho conquistava a posição de sócio, ganhando dividendos nos balanços anuais.

Com a capacidade e visão se desenvolvendo sempre, ao lado de invejável saúde física e mental, tomou-se proprietário único da loja ao se mudar para São Paulo o velho amigo e protetor Nicolau Farhat.

Beleza! O menino pobre em comerciante forte, transformado pelo esforço pessoal, agora mais arrojado pelo nome, pelo conceito e pelos crescentes cabedais bancários, que o encorajavam a enfrentar concorrências não só locais, mas se expandindo para a capital do Estado. Passou a fazer compras nas metrópoles, São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Porto Alegre e fornecer a pequenos comerciantes amigos, além de reforçar cada vez mais os safristas de mate, em colaboração confiante e segura.

Quando veio residir em Curitiba, onde permaneceu até o fim da vida, adquiriu engenho para industrializar a erva e visitou países da America do Sul, especialmente fregueses da Argentina.

Não só o comercio e a indústria da erva mate indicaram sua mudança territorial. Tornara-se político elegendo-se deputado com facilidade. A orientação e poderio do sogro abriram-lhe esse caminho, em que teve realce e permanência. Foi deputado por Ipiranga e municípios vizinhos por vários períodos consecutivos, limitadas as suas gestões pela queda do regime democrático ao se instalar o Estado Novo, popularmente alcunhado ditadura getulista.

Nessa emergência, tratando-se de um líder estranho a qualquer belicosidade pessoal, mas dono de um desembaraço capaz de produzir influências perigosas à nova ordem foi detido e recolhido a um presídio especial improvisado na Sociedade Giuseppe Garibaldi, clube recreativo que a revolução confiscou aos italianos enquistados, no entender da época, e galhardamente situados no alto de São Francisco, em Curitiba, onde haveria de funcionar mais tarde o Tribunal de Justiça do Estado, até que a própria justiça devolvesse o prédio aos verdadeiros donos.

Essa prisão foi alarmante, ao lado de outros homens valorosos na liderança paranaense, como o excelente patrício Lisymaco Ferreira da Costa, secretário-geral de uma administração pública que o conhecia e o prestigiava como verdadeiro mestre, consultado ainda no decorrer de anos depois de seu afastamento pela revolução. Perigosa, porque esses vultos, mais Luiz Maranhão, Martins Camargo e outros, entregues às incertezas que já antes haviam dado ao Paraná exemplos da mais alta selvageria de governos instituídos em bases de renovações partidárias, como o maldito episodio do Km 65 da Serra do Mar; perigosa porque aquela revolução não tivera comando com força de persuasão que desse ao povo, mais na espreita dos acontecimentos do que no entusiasmo da arrancada, uma plausível tranqüilidade ante as hordas sedentas de entreveres que subiam constantemente do Rio Grande, num espetáculo repetindo 93/94, da falta de entrosamentos, de ordem, de escorreita feição militar; perigosa porque já havia gerado, no seu primeiro grito em nossa região, a dolorosa cena de morte, em seu gabinete de honra e disciplina, em pleno comando de uma Unidade constituída, do Exército, o calmo cidadão, o talentoso mestre, o campeão de civismo que fundou, organizou e prestigiou os Centros de Preparação de Oficiais da Reserva no Brasil, o Major Correia Lima; perigosa, porque eram negadas informações a respeito dos presos incomunicáveis, mortificando-se as suas famílias na ignorância da saúde, tratamento, destino que a eles seria dado; perigosa porque depredações inesperadas e sem fundamento explicável surgiram por todos os cantos; enfim, quadro de qualquer revolução político-militar era exasperação pela posição geográfica do Paraná entre as potencias maiores em armas e poderio econômico, Rio Grande do SuI e São Paulo, que podiam fazer de nossas plagas apenas verdejantes de esperanças de um futuro cantado pelos poetas e enfrentado pelos lavradores, sem olhos para conquistas ou vaidades terrenas, um formidando teatro de dores, de gemidos, de sangue, de desgraças.

Por que um homem caridoso, compreensivo, trabalhador no melhor sentido havia de ser preso e ter todos os bens interditados? Porque era deputado, conselheiro da Caixa Econômica, sem saber dar tiros, nem dar ordens, nem ligações ainda que mal definidas, pro ou contra outubradas? São incongruências como a expulsão de Pedro II, o Magnânimo.

Pois não conseguiram as desventuras da época esmorecer Hildebrando de Araújo na sua constante caminhada!

Sua fortuna era grande, sólida, às claras e bem aproveitada. Veio a possuir uma das mais amplas e bonitas moradias da cidade, na zona residencial do Batel, embelezada com grande jardim na frente, que se prolongava para os fundos com frondosas árvores de essências florestais e de frutas escolhidas.

Destas últimas mandou plantar ao longo do alto muro de divisa com a rua e como o jardineiro ponderasse ser melhor cultivá-Ias no centro do terreno, meio quarteirão de superfície, respondeu: aí eu prefiro, porque facilita aos meninos virem furtar as laranjas quando maduras ou mesmo ainda verdolengas; são mais gostosas do que compradas ou presenteadas.

Que carinho demonstrava, quando dono de jornal, para com os pequenos vendedores, que enchiam as ruas de festivas ofertas até que fossem disciplinados e amparados com moradia e educação, antes de desaparecerem os limpos uniformes e a atividade, absorvida pela sedentariedade das banquinhas!

Possuiu Hildebrando alguns dos mais bonitos automóveis de Curitiba, importados direta ou indiretamente dos Estados Unidos, de fabricação especial. Obras de arte - pinturas e esculturas -, em sua casa, mostravam o prazer de possuir o que havia de melhor.

A discoteca, em que se notava a preferência pela musica clássica e erudita, dava prova do gosto e aprimoramento intelectual e da sensibilidade, que não ia buscar nos templos, senão na escolhida biblioteca que dava pompa ao seu escritório residencial.

Freqüentando os melhores clubes, os melhores teatros, os melhores cinemas, que ao tempo selecionavam os freqüentadores por iniciativa de cada um e se apresentando sempre muito bem trajado, em casimira inglesa, não se deixava, entretanto, empolgar com a moda. Brincava contando o preço de seus calçados, das gravatas e de outros pormenores rebuscados preocupadamente pela alta classe, para informar que não levava a serio tais requintes.

Dono de cultura intelectual que não podia ser mais aprofundada em razão dos ramos de atividades que disputavam seu tempo, em norma tomava conta das rodas de palestras, já por estar sempre bem informado, jornalista nato, já pela inclinação de polemista que lhe aprazia o espírito competidor.

Foi proprietário do jornal "Diário da Tarde", já tradicional, mas que desenvolveu num sentido de alta belicosidade, redação vibrante, que comandava em todos os serviços, quando queria, fiscalizando escolha de matéria, revisões, fôrmas, calandras, distribuição aos jornaleiros, férias diárias, retorno de encalhe...

Foi um enamorado da rotativa, a primeira grande instalada no Paraná. Cada falha de impressão, de técnica, de funcionamento era estudada atendida incontinenti.

Tem o nome eternizado num colégio e numa rua de Curitiba e também numa rua de Ipiranga.

 

Fundação Hildebrando de Araújo - 2010
Alameda Cabral, 300 Centro - Curitiba/PR - Brasil
fone: (55 41) 3225.2532 - fone/fax: (55 41) 3324.0336
e-mail: fundacao@fundacaoharaujo.org.br